David Ganc - Português
Flautista, saxofonista e arranjador

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CD reedita parceria histórica de Benedito e Pixinguinha com saxes e flautas de David Ganc e Mario Sève e duas inéditas

Freqüentadores de rodas musicais diferentes, David Ganc e Mário Sève, disputados flautistas e saxofonistas com sólida base acadêmica, atentaram para a dica do amigo comum, o violonista Nando Carneiro: “Como é que vocês ainda não se juntaram?”

O motivo não tardou a aparecer. Um CD que reeditasse a parceria de Benedito Lacerda e Pixinguinha, o dueto instrumental mais importante da música brasileira. Com inéditas. Novos arranjos. Flauta e sax. Alternância nos instrumentos. Melodia e contraponto. Pixinguinha & Benedito. Mário Sève & David Ganc.

Deu certo. Já era tempo de rever a dupla que criou uma marca, uma linguagem que perdura até hoje. A arte do contraponto brasileiro, que teve seu ápice com o mestre Pixinguinha, foi então registrada em disco de 14 músicas, inspiradas nas gravações da década de 40. Duas delas são inéditas, saídas do baú da família: o baião Acorda Garota e o frevo Agua Morna.

“Benedito foi o maior flautista de choro que já ouvi. Talvez só perca para o Pixinguinha na sua fase áurea”, afirma Sève.

“As improvisações de Pixinga em contraponto aos solos de Benedito criavam melodias independentes que funcionavam super bem. Esse estilo foi o fundamento do nosso CD”, diz Ganc.

Benedito e Pixinguinha estavam a serviço da música. O fraseado dos dois, menos clássico e mais rítmico, tinha espontaneidade e alegria. Exatamente como pretendem agora Ganc & Sève.

Gravado em 2004 num estúdio em Araras, RJ, o CD sai pelo selo paulistano Núcleo Contemporâneo. Responsáveis pela pesquisa, interpretação, direção musical, arranjos e adaptações da obra dos mestres, os dois revezam-se nas flautas, flautim, saxofones alto, tenor e soprano e até pifes.

O novo CD redefine classificações e gêneros, sem preconceitos. O que era choro virou choro-forró ou choro-lundu. Tem levada de samba de roda; tem até duas inéditas - um frevo e um baião, saídos do baú da família. Sem preocupação documental, é música viva que flui, agradável de ouvir. Para aproveitá-lo melhor:esqueça a palavra “resgate”.

O acompanhamento é luxo só: um regional que inclui Dininho, filho de Dino 7 Cordas (mestre do contraponto no choro, ao lado de Pixinguinha); Jorginho “Época de Ouro” do Pandeiro (elo de ligação com o mestre), Celsinho Silva, Mingo Araujo (percussões), Oscar Bolão (bateria). Da turma do samba: Wanderson Martins, que toca com Martinho; Esguleba (do grupo de Zeca Pagodinho); Claudio Jorge, parceiro de Cartola. Em vários momentos, o disco tem o mérito de remeter a João da Bahiana, Clementina de Jesus; ao samba batucada de Ciro Monteiro, mesmo dentro de uma visão contemporânea. E a Paulinho da Viola.

Tem ainda o piano de Leandro Braga; o quarteto de cordas Guerra Peixe; o acordeon de Toninho Ferragutti e uma orquestra de frevo com os metais de Roberto Marques, Nilton Rodrigues, Carlos Vega.

O disco começa com Cheguei, em andamento mais lento que o original, para trabalhar melhor a idéia de lundu. No arranjo, Sève usou atabaques, palmas, prato e faca. Acerta o passo ganha uma visão de choro mais “buarquiana”. A festa é de Maurício Silva, exímio sapateador, que grava como músico pela primeira vez, com o tablado e os pés como instrumento.

O choro e o forró estão muito próximos um do outro e a prova é Descendo a serra, com participação especial do acordeon de Toninho Ferragutti e da percussão de Mingo Araújo, especialistas na linguagem. Cochichando, uma das músicas mais tocadas em rodas de choro, tem formato pagodeado e improvisos. Em Os 8 Batutas, Bolão na bateria dá o tom maxixeiro. Sedutor, de melodia singela, vem em arranjo lírico de Ganc para o quarteto de cordas Guerra Peixe, retomando a bem sucedida parceria de dois outros discos individuais de David. Em Ainda me recordo, composição a duas vozes (melodia e contraponto), Mário e David optaram, não por acaso, em gravar alternando-se nos instrumentos de sopros, acompanhados apenas do pandeiro de Jorginho.

Mário Sève, que coordenou a pesquisa, queria no disco a variedade de estilos que caracteriza a obra do mestre. Com acesso aos baús familiares, intuiu que Pixinguinha havia composto baiões - com Os 8 Batutas, Pixinguinha fez temporada em 1921 ao lado do grupo Turunas Pernambucanos, de Jararaca & Ratinho. Encontrou vários e escolheu a inédita Acorda Garota, que foi gravada com toda a família da flauta, incluindo a flauta baixo e os pifes. Na gravação, Sève faz duas citações, a Canção do Caicó e Canto da nossa terra, da Bachiana nº 2 de Villa-Lobos.

Água Morna, também inédita, é um frevo raríssimo na obra de Pixinguinha. No arranjo de Ganc, foi gravado com uma orquestra de frevo completa, com a família completa do sax. É frevo de rua olindense da melhor qualidade.

Os 5 Companheiros chega lírica, e transforma-se numa espécie de choro-bossa. No repertório das antigas, Seu Lourenço no vinho é a música que mais se aproxima do clima tradicional do choro. Virtuosa, tem solo vigoroso de Jorginho do Pandeiro. Seguindo o clima dos tempos idos, Sève & David concordam: Gloria é a valsa mais bonita de Pixinguinha. O arranjo traz acordeon, sopros e cordas. Displicente, um choro sambeado, batizado com o acento característico do samba-batucada, dá destaque para a cuíca e adufe.

Urubu malandro fecha o disco com curiosa transição da nova gravação para uma gravação original caseira com Pixinguinha & Benedito, extraída de um cd de pesquisador e sem registro comercial anterior. É tema que permite a improvisação. Sève & Ganc puxam a levada afro nos instrumentos, mas as variações utilizadas são do próprio Pixinguinha.

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