David Ganc - Português
Flautista, saxofonista e arranjador

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David Ganc e Quarteto Guerra-Peixe interpretam Tom Jobim

Dez anos sem Tom Jobim. Faltando pouco para chegar no dezembro que levou o paisagista do Brasil, o flautista David Ganc apresenta, no seu terceiro CD, um dos aspectos menos estudados do mestre que queria harmonizar o mundo, o Jobim de câmera. “David Ganc & Quarteto Guerra-Peixe interpretam Tom Jobim”, disco que sai pela Kuarup, foi concebido a partir de arranjos para quartetos de cordas criados especialmente por Ganc para a obra jobiniana.

Das tantas releituras que ainda se farão da música desse compositor que é filho dileto de Villa-Lobos e Radamés Gnattali, essa homenagem é das mais originais. Convidado em junho de 2001 para um concerto-tributo a Tom Jobim em Pittsburgh, EUA, Ganc recebeu uma encomenda para arranjar peças da bossa nova para soprano e quarteto de cordas. Entusiasmou-se com a sonoridade e continuou a escrever para a difícil formação de quarteto, já pensando em Jobim. Usou a flauta e sax como solista e improvisador e ainda a percussão como elemento brasileiro.

“Utilizei os recursos da escrita para arranjos de cordas. Não há dobras de estúdio. Deixei espaços livres para a flauta. Quis valorizar as cores das músicas do Tom, que, como compositor já é um arranjador, trazendo 100% de MPB e erudito, e não 50% de cada um”, conta David. O resultado traz luz ao lado classicista de Jobim, nem sempre considerado em sua grandeza, e que conviveu simultaneamente com a bossa nova que tornou-o mundialmente conhecido.

Encontrar um grupo de nível que captasse a essência da obra de Jobim, sofisticada, mas ao mesmo tempo de agrado popular; universal, mas com sabor de Brasil, era o mais difícil. O suingado Quarteto de Cordas Guerra-Peixe foi o veículo ideal para as gravações, realizadas entre julho de 2003 e janeiro de 2004. Não chega a ser coincidência que o quarteto formado por Ricardo Amado e Rogério Rosa, primeiro e segundo violinos, Jairo Diniz, viola, e Ricardo Santoro, violoncello, tenha surgido inspirado no maestro Guerra-Peixe que, com sua concisão, está para a música erudita assim como Tom está para a MPB.

Percorre o disco a percussão de Mingo Araújo e o baixo de Denner Campolina. Nicolas Krassik (violino-solo), Nando Carneiro (violão) e o piano de Leandro Braga completam as participações.

Tom era muito mais do que a bossa nova que ajudou a inventar. Desprovidas de suas letras originais, as músicas escolhidas para o CD mostram a imensa qualidade melódica e harmônica de seus choros, sambas-canção, modinhas, valsas e peças escritas para o cinema e teatro.

O choro Garoto abre o disco, e as congas afro-brasileiras que abrem e fecham a música contrastam com o tratamento erudito dado por David.

A romântica Sue Ann faz parte da trilha composta para o filme The Adventurers, em 1970, de Louis Gilbert. Da parceria maior com Vinicius de Moraes Água de Beber, de 61, vem com vigor e improvisação e Modinha, de 58, chega melancólica com o sax alto. Na Só Danço Samba, de 62, a introdução das cordas em pizzicato com a percussão simulam uma batucada, soando popular e brasileiríssimas.

Jobim se dizia um acompanhador de cantoras, mas teve uma única parceira feminina na composição, Dolores Duran. A valsa Estrada do Sol, de 57, é uma das três feitas com ela. Meu Amigo Radamés, uma de suas últimas composições, ganha introdução de cordas escrita com citação da Sonata em lá menor para flauta solo de J.S. Bach, aqui executada pelo cello.

A relação entre esses dois grandes foi além da música. Tom considerava Radamés seu mestre e aproveitou como poucos da relação popular/erudito desenvolvida por Gnattali. Meu Amigo Tom Jobim foi a resposta musical.

Em Mojave, o violino-solo Nicolas Krassik e o violão de Nando Carneiro fazem o equilíbrio com os três instrumentos de sopro tocados por David. Há espaço para a improvisação de todos. Já em Rancho nas Nuvens, Ganc alterna o tema da música nos sopros, tocando em cada parte da melodia um instrumento diferente. Conta aqui com o piano de Leandro Braga, que entra com improvisos no baião. Fecha o disco Você e Eu, faixa-bônus que não é de Jobim, mas dos parceiros constantes Vinicius e Carlos Lyra, com flautas oitavadas, criando um timbre novo.

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